Acupuntura – Ligação direta

Prepare-se para comprar o seu estojo de agulhas. Cientistas da Universidade da Califórnia comprovaram que os pontos da acupuntura estão mesmo ligados, através do cérebro, a importantes órgãos internos e funções do corpo.

POR DENIS RUSSO BURGIERMAN

O pesquisador espeta a lateral do pé do voluntário e gira a agulha devagar. Na tela do computador, onde se vê a imagem do cérebro do paciente, acende-se uma área, sinal de que ela entrou em atividade. Só que o campo iluminado não rege o movimento dos pés nem processa a dorzinha da picada: trata-se da parte do córtex que controla a visão. E, não por acaso, o local perfurado é aquele que os chineses chamam de kuang ming (clareza da luz), usado para curar doenças dos olhos.

Foi assim que o físico Zang-Hee Cho, da Universidade da Califórnia, comprovou que certos pontos na pele estão de fato ligados a órgãos internos, como se sabe no Oriente há cinco milênios. A pesquisa, realizada em 1998 pela equipe do coreano Cho, é uma notícia aguardada há décadas. Pelo menos 1 bilhão de cidadãos dentro e fora da China já recorrem à acupuntura, e outro tanto certamente só não o faz porque duvida da sua confiabilidade. Agora, antigos e novos usuários poderão submeter-se às beliscadas com tranqüilidade. A ciência chegou, pela primeira vez, a conclusões seguras a respeito do assunto.

Laboratório de dentro

Cho escolheu o kuang ming porque o córtex visual é a área mais bem mapeada do cérebro. Além disso, outros dois acupontos (os lugares prescritos para as agulhadas) relacionados aos olhos foram estimulados em doze cobaias. Em todos os casos, o campo do cérebro correspondente à vista foi ativado. Por fim, para garantir os resultados, o físico tratou de cravar outros lugares do pé, sem valor para a acupuntura. O córtex ignorou as pinicadas falsas.

“Ninguém ainda havia provado que os acupontos têm conexão com o córtex, a parte do cérebro que toma as decisões e controla os órgãos”, disse Cho à SUPER. Essa camada do cérebro é capaz de ativar uma verdadeira indústria farmacêutica interna (veja na página 28). Ela pode estimular a produção de anticorpos para enfrentar vírus e bactérias invasoras; acalma o sujeito; manda fabricar os hormônios que regem os órgãos; e ordena a criação de substâncias que aliviam a dor. Enfim, está provado que a terapia chinesa encontrou um jeito de acionar, sem remédios ou bisturi, importantes circuitos da nossa máquina bioquímica

Ponte orgânica

Esta gravura chinesa antiga mostra um dos doze meridianos que percorreriam o corpo humano. Utilizando esse caminho, os acupunturistas garantem que, ao enfiar uma agulha no dedo mindinho, curam palpitações e previnem enfartes. Estranho, não é? Mas moderníssimos testes de ressonância magnética estão confirmando essas relações dentro do organismo

A cura está na farmácia interior

Há 5 000 anos, quando criaram a acupuntura, os chineses não sabiam que o cérebro rege todo o organismo. O sistema que inventaram pressupunha a existência de doze meridianos – canais de energia que conectariam os órgãos – sobre os quais se localizam 1 500 acupontos. “A tradição diz que, com as agulhas, podemos reorganizar a energia que circula nesses canais”, diz o chinês Jou Eel Jia, acupunturista em São Paulo. Acontece que ninguém nunca viu um meridiano. A idéia de que, em vez de uma estrada energética invisível, sejam terminais nervosos, através do cérebro, que ligam o pé aos olhos, como demonstraram Cho e seus colegas, é mais plausível para a medicina ocidental.

A mesma hipótese explicaria a eficácia das agulhadas para curar – esta ainda um mistério para os cientistas. “Se o estímulo chega ao córtex, pode, a partir dele, atingir o hipotálamo”, sugere o fisiologista Gilberto Xavier, da Universidade de São Paulo. “O hipotálamo é um centro nervoso que trabalha em conjunto com a hipófise, a glândula-mãe.” A dupla rege a produção dos hormônios que agem nos órgãos. Controlando-os, fica fácil tratar muitas das doenças causadas pelo seu desequilíbrio, da diabete à obesidade.

Um hormônio importante é a adrenalina, que é liberada quando tomamos um susto. Ela nos deixa alertas, mas também agitados e estressados. “Já sabemos que um de seus efeitos colaterais é baixar a resistência a doenças”, conta Xavier. Aí a acupuntura pode ajudar controlando os níveis de adrenalina no sangue e deixando os anticorpos livres para agir.

E há ainda um outro possível efeito. “O estímulo pode agir no bulbo cerebral, que manda nos neuroquímicos”, diz Cho, referindo-se às proteínas que tornam possível a transmissão de impulsos entre um neurônio e outro. Se os acupunturistas as controlam, podem bloquear a dor das doenças ou aliviar a dependência de drogas e álcool.

Ex-cético

“Para ver o cérebro, Cho usou ressonância magnética, técnica em que foi um dos pioneiros”, explica o argentino Horácio Panepucci, da Universidade Federal de São Carlos, interior de São Paulo, o principal pesquisador da ressonância no Brasil. “O aparelho é uma espécie de raios X para ver tecidos moles como o cérebro.” O coreano empregou tecnologia de ponta, a ressonância magnética funcional, que, além de enxergar o córtex, identifica mudanças na quantidade de oxigênio no sangue, revelando quais regiões cerebrais estão em atividade. Agora ele tenta captar financiamento para testar os acupontos ligados à audição, ao olfato e ao paladar. A técnica custa caríssimo.

Cho, que tem 62 anos, conhece a acupuntura faz tempo. “Quando eu era criança, meu pai teve uma paralisia facial e se curou com as agulhas”, contou à SUPER. Essa doença, caracterizada pela perda dos movimentos em um dos lados do rosto, é tratada pelos ocidentais com cortisona, um hormônio violento que provoca inchaço e aumento de peso, entre outros efeitos colaterais.

Mesmo assim, o coreano não acreditou na terapia milenar. “Moro no Ocidente desde 1962 e aprendi a achar que acupuntura é fantasia”, diz. Isso até ele próprio, em 1990, tomar um tombo e torcer o pé. Atraído pelo baixo preço das consultas – cerca de 40 reais, contra 100 reais em média no Brasil –, resolveu tentar. “Foi quase um milagre. Depois de 15 minutos de sessão, eu estava bom. Resolvi que valia a pena pesquisar por que funciona tão bem.”

Xavier, porém, ressalta que o experimento de Cho é animador, mas limitado. “Ele mostrou que o estímulo no pé ativou as áreas visuais. Mais do que isso é especulação.” Segundo o fisiologista, serão necessárias outras pesquisas para revelar de que maneira a acupuntura cura.

O físico coreano Zang-Hee Cho, da Universidade da Califórnia: mesmo admitindo ter-se tornado “cético” sobre a eficácia de medicinas tradicionais, depois de quase 40 anos passados no Ocidente, provou que a acupuntura funciona

 

O ponto kuang ming, ligado à visão, faz parte do meridiano da bexiga, que sai do pé e vai até o canto interno dos olhos. A medicina ocidental não aceita a teoria dos meridianos, mas também nunca conseguiu provar que eles de fato não existem. Segundo a acupuntura, há doze meridianos e 1 500 acupontos ao longo deles

Para aliviar, espete a agulha no nervo certo

A cura de doenças pela acupuntura sempre foi um mistério para a ciência. Mas o neurocientista canadense Bruce Pomeranz, da Universidade de Toronto, já tinha compreendido há mais de vinte anos como é possível controlar a dor com as picadinhas (veja infográfico abaixo).

“Existe uma célula na coluna vertebral que se chama interneurônio”, conta o fisiologista Gilberto Xavier. “Ela é um neurônio, só que pequeno, e sua função é evitar que o cérebro seja avisado da dor em situações em que isso prejudicaria o indivíduo” – por exemplo, no caso do sujeito que, apesar de ter a perna quebrada, tem de se safar rápido de um acidente. A acupuntura sabe usar esse recurso também em situações menos extremas: quando se estimula um certo tipo de terminação nervosa logo abaixo da pele, o interneurônio é induzido a entrar em ação, bloqueando o caminho da dor no corpo inteiro.

“Os pontos de acupuntura, conhecidos há milhares de anos, são justamente os lugares da pele com maior concentração de nervos que ativam esse mecanismo”, explica o médico Ysao Yamamura, que chefia o renomado Departamento de Acupuntura da Universidade Federal de São Paulo. Isso justifica o sucesso da terapia no tratamento de dores. Mas, até o trabalho de Cho, ninguém sabia sugerir como ela age em órgãos específicos e faz o paciente sarar de doenças.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.