Estabelecendo limites: como dizer “NÃO”

Connirae Andreas

As crianças não sabem muito sobre o mundo, mas estão equipadas com uma imensa curiosidade que as leva a descobrir como é o mundo. Entretanto, o mundo também contém muitos perigos possíveis. Parte do trabalho dos pais é advertir as crianças acerca dos perigos e, ao mesmo tempo, preservar a capacidade natural delas de explorar e aprender. Em artigos anteriores nós apresentamos muitas maneiras de guiar e direcionar gentilmente as crianças sem ter que dizer um “Não” categórico. 

Contudo, existem momentos em que a nossa melhor escolha será dizer “Não”. Parte do trabalho dos pais é, ocasionalmente, recusar quando a criança pede alguma coisa. Como com qualquer outra interação com seu filho, isso pode ser um “problema” ou uma oportunidade de intensificar um pouco o desenvolvimento do seu filho.

Ainda que, às vezes, seja necessário, nenhum de nós gosta quando outra pessoa nos diz “Não” para aquilo que nós queremos. Quando nós dizemos “Não” para uma criança, nós podemos imediatamente oferecer idéias sobre o que ela pode fazer para redirecionar a atenção dela para alguma outra coisa que ela pode gostar. Encontre alguma outra coisa que satisfaça o propósito da criança.

Quando existe um limite, os pais precisam de um meio para explicar claramente sua mensagem. De vez em quando, você pode transmitir a mensagem de que existe um limite simplesmente mencionando uma alternativa positiva. Exemplo: Mark, com quase dois anos, está sentado no jardim, brincando na areia. Eu quero caminhar para fazer um pouco de exercício.

Mark olha para mim e diz “Brinca na areia”.

“Você gosta de brincar na areia?” eu respondo.

“Mamãe brinca.”

“Você quer que a mamãe brinque também?” Eu recapitulo o que Mark disse. Isso faz com que ele saiba que a mensagem dele foi recebida. Do contrário ele vai continuar dizendo “Mamãe brinca”.

“Agora a mamãe quer caminhar, Mark,” digo de modo bem amável. “A mamãe vai caminhar aí em volta e vai ver você de novo daqui um pouco.”

“Certo.”

Teria sido fácil dizer “Não, Mark, eu não vou brincar com você” e direcionar a atenção dele para o que ele não está recebendo. Desse modo é mais provável conseguir queixas e irritação como resposta.

Em vez disso, eu digo ao Mark o que eu quero fazer, de uma maneira muito prática, e direciono sua atenção para algo que ele provavelmente irá gostar no futuro – eu irei vê-lo daqui um pouco. Exemplo: Mark e eu estamos caminhando num shopping center. Eu estou grávida e um pouco cansada. Mark tem quase dois anos e caminha bastante bem.

“Mamãe segura”, “colo”.

“A mamãe está muito cansada para segurá-lo, Mark. Entretanto a mamãe vai segurar a sua mão.” Enquanto faço a proposta, estendo a minha mão para pegar a dele. Ele estende sua mão para segurar a minha e saímos caminhando juntos. Ao oferecer a ele uma alternativa de “segurar”, ficou mais fácil redirecionar a atenção dele sem ter que dizer “Não”. Quando você precisa dizer Não, faça-o com clareza e rapidamente. Depois redirecione a atenção da criança.

Muitas famílias acabaram de sair das “grutas”, onde todos nós desfrutamos de uma excursão. Shirley, com 6 anos de idade, foi direto para a loja de lembranças e começou a achar coisas que ela queria.

“Eu quero isso. Posso ter isso? Você vai me comprar isso?” ela começou a perguntar agitadamente, correndo pela loja. O estado de espírito dela era achar qualquer coisa para comprar, não para apreciar as bugigangas.

Mark, também 6, disse “eu quero ir ver a loja de lembranças.”

“Está certo, Mark”, eu respondi. “Nós não vamos comprar nada, mas você pode passar um tempo olhando todas as coisas.”

“OK” disse o Mark.

Na loja, Mark começa a ficar atraído pelas bugigangas para turistas. “Podemos comprar isso, mamãe? Só essa?”

“Não Mark. Eu já disse: nós estamos só olhando.”

“Por favor, por favor”, pediu o Mark, começando a choramingar.

“Mark, se você continuar falando em comprar alguma coisa, nós vamos ter que sair. Se você quiser ficar para olhar as coisas e ver tudo que têm, aí nós podemos ficar.” 

Mais tarde, fora da loja, quando nós começamos a caminhar para o local do piquenique, Shirley caminhou até sua mãe e pediu para comprar algo.

“Eu não tenho dinheiro, Shirley”, disse sua mãe, talvez relutante em dizer um sincero “Não”.

Entendendo que o dinheiro era a única limitação, Shirley saiu correndo para descobrir alguém no grupo com dinheiro. Ela sabia que meu marido, Steve, tinha dinheiro, e foi procurá-lo para pedir. Quando Steve disse “Não,” Shirley retornou para pedir de novo à sua mãe. A mãe da Shirley fez uma pausa, e aí disse de forma hesitante, “Bem,… eu não sei se nós vamos voltar por aquele caminho, Shirley.”

Agora Shirley redirecionou a energia dela em como retornar por aquele caminho. Ela começou a procurar alguém que poderia retornar com ela. Aí sua mãe disse: “Eu acho que nós não vamos comprar nada, Shirley”, numa voz evasiva.

A Shirley continuou tentando tornar possível comprar alguma coisa, falando sobre quem poderia ter dinheiro, sobre quem poderia voltar para a loja com ela, etc.

A Shirley estava demonstrando tenacidade e boas habilidades para resolver problemas, porém estavam sendo mal aplicadas, visto que ela, no final das contas, estava sendo rejeitada. A mãe da Shirley nunca deu a ela um claro “Não”. Ao tentar dissuadi-la graciosamente, sua mãe simplesmente re-canalizou a energia para ela descobrir outra maneira para tornar possível comprar algo. A Shirley não entendeu que isso significava um “Não”, e continuou tentando. Enquanto a frustração aumentava, ela ficava cada vez mais chorosa e suplicante, claramente infeliz. Embora demonstrasse uma grande dose de criatividade e persistência, essas habilidades eram acompanhadas de um estado desagradável.

Dizer “Não” para um filho é como remover um esparadrapo: dói menos tirar rapidamente e tão ligeiro quanto possível. Uma declaração firme e amigável “nós não vamos comprar nada, Shirley”, causaria um curto circuito no comportamento frenético e choroso dela. E depois um “mas você pode ficar olhando por aí se quiser”, podia redirecionar a atenção dela para algo mais divertido para ela fazer.

A saga continuou. A Shirley choramingou e criou mais um pouco de confusão, até que Steve finalmente disse (gentilmente) “Eu não quero mais ouvir o seu lamento, Shirley. Você gostaria de ir para o carro? Se você quer fazer estardalhaço, lá você pode fazer.” 

“Ou se você já está pronta para se sentir melhor agora, você pode ficar” acrescentei.

“Eu não estou fazendo estardalhaço”, insistiu ela numa voz chorosa.

“Eu chamo isso de estardalhaço e eu não quero ouvir mais”, Steve respondeu. “Eu vou abrir o carro para você se quiser ir para lá.” Steve foi abrir o carro.

A Shirley ficou muito quieta e sentou-se à mesa de piquenique. Ela ainda estava carrancuda, e parecia triste, mas estava quieta – uma melhora com certeza em relação ao lamento anterior dela.

“Shirley, eu vou carregá-la para o carro”, disse o avô dela.

“Bom, espera um minuto”, eu disse. “Eu acho que ela decidiu se sentir melhor, mas eu ainda não tenho certeza.” Eu queria encorajar a mudança na direção que nós queríamos, mesmo que ela ainda não tivesse mudado totalmente. 

Esperamos um pouco. A Shirley continuava quieta. 

As outras crianças estavam comendo pedaços de maçã em volta da mesa. Eu perguntei para todas elas “Quem vai querer maçã?… Você quer uma, Shirley?” 

“Eu quero” disse ela numa voz lamuriante, com a cara fechada.

“Você pode pedir com mais modos?” falei.

“Por favor, eu posso comer uma maçã”, insistiu Shirley com uma voz ainda chorosa.

“OK. Você pode comer uma.” Eu queria reconhecer que a Shirley já tinha mudado as palavras em resposta ao meu pedido. Ela até acrescentou um “por favor”. Eu não tinha deixado claro que o que eu queria é que ela mudasse o tom de voz. Então prossegui. “Eu gostaria que você pedisse com uma voz que soasse melhor, e aí eu vou lhe dar. Você pode usar aquela sua voz alegre que eu já ouvi você usar antes.”

Eu esperei um pouco. Logo a avó dela perguntou: “De quem é essa maçã?”

“É para a Shirley”, respondi. “Eu só estou esperando ela pedir com a voz alegre dela.”

“Posso comer a maçã?” pediu a Shirley, dessa vez com uma voz amável.

“Com certeza. Aqui está, Shirley.” Amistosamente entreguei a maçã para ela, mas não fazendo disso algo muito importante.

Mais tarde, Mark, com 6 anos, me perguntou: “Por que a gente não compra alguma dessas coisas?”

Seu pai explicou: “Bom, Mark, normalmente esses brinquedos são mais caros num lugar como este. Você pode comprar a mesma coisaem geral eles também quebram muito ligeiro.” 

Eu acrescentei: “Sim. É caro fazer a excursão pelas grutas, e nós achamos que você gostaria muito mais do que gastar o dinheiro em brinquedos que vão se quebrar logo.” Mark estava comparando ganhar as bugigangas com não ganhar. O que fiz foi mudar a comparação dele porque assim ele valorizaria o que realmente ganhou – a experiência nas grutas.

Connirae Andreas, com seu marido Steve, está ensinando e desenvolvendo a PNL desde 1977. Esse artigo foi extraído do CD do seminário “Successful Parenting”, onde você encontra mais dessas maneiras simples e fáceis de tornar a criação dos filhos mais divertida e gratificante, tanto para você como para seus filhos – de todas as idades!

O artigo Setting Limits: How to Say “No” está no site da NLP Comprehensive.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.