Jung e a sincronicidade

Foi Carl Gustav Jung que, em 1929, que criou o termo que define os ”momentos mágicos”. O termo foi criado para definir um princípio de ligação não-causal. Desde o início de seu trabalho com os sonhos, Jung percebeu que os motivos oníricos tendem a coincidir relativamente com situações reais, com um significado semelhante ou mesmo com situações reais idênticas. ”O universo psíquico não existe sozinho”. ”A nossa vida é sincrônica em relação a tudo. É o óbvio, o que falta é a questão da consciência. O que dá o brilho é quando a gente percebe isso, participa do evento e aí vêm o gozo, como dizia Lacan”, ensina o professor e psicólogo Álvaro Gouvêa, da PUC-Rio, que acha que a sincronicidade não é uma imposição do mundo de fora. Em 1929, desestimulado com a profissão de compositor que não emplacava, Ary Barroso ouviu um conselho de um amigo que implorou para que ele fosse ”se benzer” com uma espírita em Niterói. Ary tinha sido co-autor de uma música que criticava a umbanda e, segundo o amigo, fizeram um ”trabalho” contra Ary. Contrariado, ele foi a Niterói, onde tomou um banho de ervas.

Na volta, ouviu um grupo de pessoas gritando na Praça 15: ”Dá nela”, ”Dá nela”. A ira contra a mulher que agredia os passageiros em um ponto de ônibus ecoou na cabeça de Ary. Ao chegar em casa, ele compôs Dá Nela, e inscreveu a música nos últimos cinco minutos finais do concurso da Casa Edison. Resumo da história: Ary ganhou o primeiro prêmio e pôde finalmente se casar. A partir daquele momento, abriram-se várias frentes profissionais. Nada disso teria acontecido se Ary não tivesse seguido o conselho do amigo. Simples coincidência ou sincronicidade? Muitos fatos como este ocorrem na vida das pessoas sem que elas se dêem conta. Um livro encontrado em um sebo, justamente o que faltava para a conclusão de um trabalho. Conhecer uma pessoa que vai indicar uma diferente perspectiva na vida pessoal ou profissional. Uma estranha circunstância ao conhecer o grande amor. Quem nunca ficou surpreso com as sincronicidades, por muitos considerados momentos mágicos? Sincrônico é algo de dentro que se coloca no mundo e o mundo corresponde. “O prazer é você perceber que uma coisa que está querendo coincide com os acontecimentos de fora”, esclarece Álvaro Gouvêa. Complicado? Nem tanto.No livro Sincronicidade – a promessa da coincidência (ed. Cultrix), a astróloga americana Deike Begg ensina que nossas habilidades cognitivas são aperfeiçoadas quando estamos em ambientes desconhecidos (daí, viajar sozinho força o exercício destas habilidades). ”Nessas ocasiões, precisamos confiar mais no instinto e na intuição.” Para que cada um acredite nessas coincidências tão especiais, é preciso testemunhar o acontecimento e seguir alguns avisos importantes. Muitas vezes percebem-se sinais consoladores, como recados de qual caminho se deve seguir, ou não (no caminho de Santiago isto acontece). ”Ocorrências sincrônicas não são isoladas, mas vêm no fim de pequenos acontecimentos sincrônicos”, explica Deike. A sincronicidade pode acontecer com qualquer pessoa, mas é preciso estar em contato consigo mesmo para perceber. (quem medita com freqüência percebe isto). Às vezes, ocorre um fato externo e o significado subjetivo, interior, ocorre em seguida. Os românticos acreditam que situações sincrônicas são recados do céu, um toque divino que garante que não estamos sozinhos na Terra. O jornalista Luís Edgar de Andrade começou a estudar o fenômeno nos anos 80 porque se sentia predisposto ao que ele chama de coincidence prone, termo criado por Arthur Koestler. Para ele, existem coincidências boas e más, é só preciso prestar atenção. E quanto mais se presta atenção, mais essas coincidências são percebidas. ”Se acontece uma coincidência infeliz, como ser vítima de uma bala perdida na Linha Vermelha, dá-se o nome de azar. Se acontece uma coincidência feliz, como acertar na loteria, diz-se que é o máximo da coincidência. Existem também as gratuitas, que aparentemente não servem para nada. São apenas engraçadas”, avisa. Quando prestamos atenção aos acontecimentos e colocamos a nossa intenção e intuição em estado de alerta, somos capazes de propiciar sincronicidades. Luís Edgar avisa que existem três teorias para explicar as coincidências. ”Todas elas, no fundo, negam que existam coincidências propriamente ditas. A mais antiga é do biólogo austríaco Paul Kammerer que, nos anos 20, formulou a lei da serialidade, segundo a qual fatos parecidos tendem a acontecer juntos. No jogo do bicho, por exemplo, que tem três extrações por dia, é muito freqüente um milhar ser sorteado de novo no dia seguinte. A segunda teoria é a de Carl G. Jung e se chama sincronicidade. A teoria mais recente é a de um biólogo inglês chamado Rupert Sheldrake, que já deu conferências no Rio. Chama-se teoria dos campo mórficos.” Para os estudiosos, os seres humanos têm radares que vão além da percepção consciente. Estamos todos na natureza. ”O boi, quando é mordido de cobra, come uma determinada erva que tem um antídoto. Esse mesmo tipo de sensibilidade é acionado quando precisamos dela. Cada pessoa tem uma capacidade especial. Na tribo, tem o pajé, que sonha por todos os índios da aldeia. O inconsciente e a necessidade fazem as pessoas correrem atrás e entrar em um mundo do desconhecido. Acontecem mil coisas fora da nossa compreensão. Mas não se deve banalizar a sincronicidade: se você é atento, está no mundo da sincronia o tempo todo. Há uma sintonia pulsando entre as coisas. O aleatório aparece no meio disso”, alerta o professor. A psicanalista Paula Boechat acredita que um fato se torna sincrônico quando traz uma emoção e um significado novo à vida. Para ela, tal acontecimento pode transformar uma pessoa muito racional, que não deixa a emoção brotar, em alguém mais sensível. Isso pode ter acontecido com Ary Barroso, nos anos 20. Pode funcionar como uma dica do inconsciente. Álvaro exemplifica. ”Por acaso foi Newton quem inventou a Lei da Gravidade? Não, ela existe! A observação foi dele, mas a realidade já existia, só que de forma desconhecida. Toda vez que você encontra um sentido em alguma coisa, a vida conspira a seu favor. Isso é real”. Um conselho pode servir às pessoas muito materialistas: quando a consciência está no mundo do aqui e agora, o ego está ligado à consciência.
Fonte: Internet (matéria de Rose Esquenazi )Texto Final: Kalindrah

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