O Filho do Senhor de Engenho

casa grande senzalaCésar Grisa – Metafora: O Filho do Senhor de Engenho
Certo dia, em uma grande fazenda no Brasil do século 18, o filho de um Senhor de Engenho, desperta no meio da noite ao som distante de uma cantoria. Curioso, desce até a cozinha, acende uma lamparina e sai de casa guiando-se por aquelas vozes. Depois de um tempo, percebe que o som vem da senzala, lugar onde os escravos de seu Pai deveriam estar repousando. Ao se aproximar ele percebe aqueles homens e mulheres reunidos com sorrisos iluminando o lugar. Homens batiam com as mãos em pedaços de barris de madeira, enquanto algumas mulheres cantavam e dançavam. Algumas escravas seguravam bebes em seus braços, os quais dormiam sem se importar com tudo aquilo. Abismado ele permanece por um longo tempo apreciando e assistindo a tudo. Aos poucos o som do batuque e os cânticos foram produzindo dentro dele um sentimento diferente. Com medo do que estava sentindo, resolve voltar para casa. Ao acordar pela manhã resolve procurar pelo seu Pai, um homem viúvo e muito justo. Seu Pai era um bom homem, que apesar de ter escravos, concedia a eles alguns direitos em troca de seus deveres como trabalhadores. Ao chegar perto de seu Pai, diz:
– Posso perguntar uma coisa? O Pai volta-se para o filho que lhe fitava nos olhos e responde:

– Claro meu filho, o que o incomoda?- Pai, como pode nossos escravos serem pessoas felizes tendo tão pouco e nós termos tão poucos momentos felizes tendo tantas terras?
– O Pai para por alguns segundos e com muita calma responde:- Meu filho, a felicidade não está na quantidade de coisas que adquirimos na vida e sim na capacidade que temos de viver com o necessário. Quando sua mãe morreu, eu fiquei muito triste, porque achava que minha vida não teria mais sentido, cheguei a esquecer da grande benção que ela me deixou e que acabei contaminando com minha tristeza…
– Qual benção papai? – Essa benção é você meu filho e peço-lhe perdão, pois só agora estou me dando conta de que tenho muitos motivos para ser feliz!
– Como você sabe, sua mãe morreu ao dar a luz de você. Quem o cuidou e o amamentou, foi uma de nossas escravas, a quem ofereci como recompensa, a liberdade. Para minha surpresa ela não aceitou e pediu para ficar cuidando de você e da casa, em troca ela me pediu permissão para que um dia do mês ela e seus amigos pudessem festejar suas tradições.
– Pai, foi essa tal de tradições que vi ontem à noite?
– Sim meu filho e não se preocupe, pois deve ser algo bom. Afinal, que mal pessoas que pensam mais no seu semelhante do que em si próprias, poderíam fazer?
César A. Grisa20/10/2009

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