O peso do stress

THOMAS VERNYO psiquiatra canadense Thomas Verny explica como a pressão do trabalho na gravidez compromete o desenvolvimento do bebê.

MAÍRA TERMERO
Autor do best-seller A Vida Secreta da Criança antes de Nascer, que fez a cabeça de muita gente nos anos 90, o psiquiatra canadense Thomas Verny veio ao Brasil lançar sua nova obra: Bebês do Amanhã: Arte e Ciência de Ser Pais, da Editora Millennium. O especialista em Psicologia pré e perinatal relata as últimas descobertas da Ciência sobre a vida do bebê durante a gestação. Radical, reforça a influência do stress na formação cerebral e psíquica da criança. Recentemente, um grupo de cientistas alemães da Universidade de Berlim descobriu que o stress pode causar aborto devido à grande produção de hormônios nocivos, como a cortisona. O autor dá ainda diversas dicas aos pais que pretendem zelar pela qualidade da gravidez. Para Verny, tratar da criança desde a gestação contribui para uma sociedade mais saudável e economiza os recursos do sistema de saúde. ”Garantir que crianças sejam concebidas e nutridas com amor é assegurar um mundo melhor”, acredita.
thomas1THOMAS VERNY
Dados pessoais
Nasceu na Eslováquia, tem 68 anos. Casado, tem dois filhos e dois enteados adultos
Carreira
Psiquiatra, professor do Instituto Santa Barbara, lecionou em Harvard e na Universidade de Toronto. Fundou a Associação de Psicologia Pré e Perinatal

Livros
Sete, entre eles A Vida Secreta da Criança antes de Nascer (1981), publicado em 27 países
Fotos: Silvio Ávila/ÉPOCA
ÉPOCA – Quando, exatamente, o bebê começa a reagir ao estado emocional da mãe durante a gestação?
Thomas Verny – No fim do segundo trimestre de gestação o bebê sente e sabe que existe. Não acredito que o bebê entenda o que está acontecendo, mas guarda as memórias para sempre. Cerca de 2% das pessoas conseguem lembrar algumas cenas do nascimento ou de estar na incubadora, o que é uma experiência muito forte. O período entre o primeiro e o segundo trimestre é nebuloso. Com quatro meses e meio, se você acender uma luz forte na barriga de uma gestante, o bebê vai reagir tentando fugir. Se fizer um barulho alto, ele tenta colocar as mãos nas orelhas. Ele já ouve. Se colocar açúcar no líquido amniótico, ele vai dobrar a ingestão. Bebês gostam de açúcar! Quando se coloca algo amargo, o bebê pára de tomar o líquido e, se você olhar de perto, ele faz cara feia. Eles sentem a diferença entre doce e amargo, reagem à luz, ao toque e ao barulho. Obviamente eles sentem.
ÉPOCA – Mas eles lembram?
Verny – Não sabemos. Mas há outra maneira de olhar para as memórias, que é imaginar que cada célula também carrega lembranças. Somos concebidos por duas pequenas células que carregam a memória que vai dizer ao futuro ser humano como ele vai ser, se vai ter olhos azuis ou se vai ter câncer. Milhões de pedaços de informações nessas pequenas células. Você pode se referir a isso como uma memória. Penso que cada célula é influenciada pelo ambiente e, num nível que nós não entendemos, porque é um grande mistério, isso carrega memórias. Mesmo animais simples como uma ameba, que é um ser de uma célula, reagem ao ambiente. Se sentem segurança, crescem. Se se sentem em perigo, contraem-se. Penso que o mesmo acontece com bebês.
ÉPOCA – Qual o efeito do stress sobre o feto em desenvolvimento?
Verny – Se a mãe está sob stress, ele se sente sob ataque e não cresce tanto quanto poderia. Isso inicia uma cascata de respostas. Eles nascem menores, prematuros, sem o sistema nervoso plenamente desenvolvido. A arquitetura do cérebro é influenciada pela ação dos hormônios do stress. O bebê não tem tantos neurônios quanto deveria. Ou seja, começa a vida com uma deficiência. Depois ele nasce nesse ambiente estressante e os problemas vão se acumulando. Quais são as chances de essa criança crescer adequadamente? Não muito boas.
ÉPOCA – Como garantir o ambiente sem stress?
Verny – Daí a importância da prevenção primária. Se você quer uma população mais saudável, realmente precisa assegurar que a gravidez siga da melhor maneira possível. Mães precisam de mais apoio, especialmente as mais pobres.
”Se a mãe está sob constante pressão, o bebê nasce menor, com menos neurônios do que deveria. O cérebro sofre com os hormônios do stress. A criança começa a vida com uma deficiência”
ÉPOCA – Evitar o stress do trabalho não é utopia?As mulheres não podem parar de trabalhar durante toda a gravidez.
Verny – Algumas podem. Há muitas mulheres que gostam de seu trabalho e vêm de famílias nas quais a mãe era muito dependente do pai, e então dizem para si mesmas: ”Isso não vai acontecer comigo”. Quando ficam grávidas, querem continuar a carreira porque podem perder o emprego. Eu entendo, mas isso cria um problema para o bebê. Se as mulheres soubessem disso, talvez fizessem outras escolhas. Se não é possível ficar fora do ambiente de stress, a mãe deve tentar relaxar pelo menos em casa. Ouvir música que ajude a descansar, conversar com alguém que dê apoio.
ÉPOCA – Quando o afastamento do trabalho é mais importante?
Verny – Desde o momento em que descobre que está grávida. Os primeiros seis meses são mais importantes que os três últimos, porque é quando se dá o maior crescimento do cérebro. É o momento crítico, no qual o stress pode ser perigoso para o bebê.
ÉPOCA – Ouvir música faz alguma diferença para o bebê?
Verny – Sim. O melhor tipo de música, e pode não ser o mais popular, é a clássica. Especialmente os movimentos lentos de compositores barrocos. Mozart é o melhor.
ÉPOCA – Qual é a diferença?
Verny – É o ritmo. Os movimentos lentos dos barrocos têm cerca de 60 a 65 batidas por minuto. Esse é o ritmo do coração materno em descanso, o que cria um ambiente de paz para o bebê. Até um adulto entra no chamado estado alfa, que é o relaxamento total. Pára de produzir os hormônios tóxicos do stress, especialmente cortisona e adrenalina. Mas a mãe precisa gostar. Caso contrário, a música também vai estressá-la. Se a mulher consegue relaxar com samba, tudo bem. Só não pode rock. Nada de rock pesado, gritos, rap. O melhor é tentar ouvir a música clássica e pensar no bebê. Deve-se ouvir pelo menos 20 minutos de música a cada noite.
ÉPOCA – O tipo de parto influencia a formação psíquica da criança?
Verny – Sim. Se for o natural, sem fórceps nem drogas, é uma experiência maravilhosa para o bebê. Ele sente que é capaz de fazer sua entrada no mundo e ganha autoconfiança. Algo como ”eu posso fazer isso por mim mesmo”. Se ocorrer uma cesárea, o bebê não vai nascer por si só. Será tirado do corpo da mãe. A primeira impressão que o bebê terá do mundo será ”eu precisei de ajuda”. Isso é só o começo. Muito vai depender do que seguir na vida. Se o bebê tiver muitas experiências positivas, um pouco dessa negatividade será minimizada. Mas se tiver experiências negativas, que todos nós temos, o bebê vai perder cada vez mais a autoconfiança. As experiências têm um efeito cumulativo psicologicamente. Por exemplo, se você tem uma carreira de sucesso, mas péssimas relações amorosas, desenvolve muita autoconfiança em sua carreira, mas toda vez que tem um encontro pensa que não vai dar certo, porque nunca deu.
ÉPOCA – Minimizar o choque do nascimento atrapalha?
Verny – Não. É um ato importante. É bom que o bebê faça uma transição gradual para este mundo. Você pode tocar a música à qual o bebê está acostumado e foi exposto durante a gravidez pela mãe. Muitos hospitais diminuem as luzes quando o bebê nasce, colocam a criança em um lençol morno e permitem que descanse no colo da mãe. Isso tudo está baseado em uma nova maneira de ver o bebê.
ÉPOCA – Dá para exigir esse tratamento?
Se o obstreta acreditar que o bebê não tem sensibilidade e sentimentos, é só uma bolha de protoplasma, ele será tratado como tal. Se você tem um obstetra que entende o que falo, ele vai tratar o bebê com algum respeito. No momento, há muitos hospitais, pediatras, obstetras, enfermeiros que não consideram o bebê um ser humano. Eles não falam e não lembram, como podem ser humanos? Muitos animais são mais bem tratados que bebês. Você nunca pensaria em operar um bicho sem dar uma anestesia. Mas bebês têm sido operados nos últimos 50 anos sem anestesia.
ÉPOCA – Sem anestesia?
Verny – Coisas horríveis foram feitas com bebês nos últimos anos. Eles eram abertos e operados porque os médicos acreditavam que não podiam sentir dor. O bebê está gritando e o médico pensa que é só uma reação fisiológica. Isso me deixa doente. E isso acontecia por todo o mundo até dez anos atrás. Só então os médicos começaram a usar anestesia em bebês.
ÉPOCA – A mãe deve ser anestesiada no momento do parto? A dor não gera também stress hormonal?
Verny – A mãe pode se preparar, ter cursos pré-natais, praticar relaxamento. A não ser no caso de o bebê ser muito grande, desproporcional ao tamanho da mãe, a dor do parto não deve ser tão grande que a mãe não possa agüentá-la. Se for, ela deve tomar uma anestesia espinhal, mas nunca a geral. É importante que mãe e filho estejam acordados. Caso contrário, eles não vão poder se ver. As primeiras horas de conexão não vão acontecer. É um modo ruim de começar a vida.
ÉPOCA – É possível gerar uma criança mais inteligente?
Verny – Os genes podem dar o potencial de inteligência. Mas é preciso haver um estímulo do ambiente para silenciar ou não os genes e moldar a arquitetura do cérebro. Não só no número de neurônios, mas principalmente na quantidade de conexões que os neurônios fazem. É uma questão de dendritos. Quanto mais brilhante uma pessoa for, como um Einstein, mais conexões os neurônios têm. Você pode conversar com o bebê durante a gestação, tocar música, brincar com a barriga, pensar no bebê, dançar. Tudo isso estimula o desenvolvimento saudável do cérebro.
ÉPOCA – É possível desenvolver habilidades específicas?
Verny – Se estiverem lá geneticamente, sim. É como em crianças. Quando você vê que uma criança de 4 anos pega um lápis e começa a desenhar, um pai sensível e responsável vai dizer: ”Meu filho parece interessado em desenho, vamos dar um jogo de lápis de cor para ele”. A família apóia, e isso é bom. Mas não é para superestimular a criança. Pessoas pensam que pouca música é bom e muita música é melhor. Não quero estimular as pessoas a carregar aparelhos eletrônicos e colocar toca-fitas encostado na barriga o dia inteiro. O bebê precisa descansar, assim como nós. O ideal é tocar boa música no ambiente.
ÉPOCA – Qual é a mensagem principal de seu novo livro?
Verny – Tudo o que está no livro é baseado em 20 anos de pesquisas. Essencialmente, o que eu digo nesse livro, e que eu não poderia dizer há 20 anos, porque não tínhamos as pesquisas neurológicas de hoje, é que tudo o que a criança experimenta desde a concepção constrói seu corpo. Isso inclui o cérebro. Só é possível construir um ”bom” cérebro quando está conectado com outro ser humano. É muito importante para os pais começarem a se relacionar com os filhos desde a concepção. A arquitetura do cérebro depende dos estímulos.
”Tudo o que o bebê experimenta desde a concepção constrói seu corpo, inclusive o cérebro. A arquitetura dele depende dos estímulos. A conexão com a mãe é fundamental para a construção do ‘bom’ cérebro”
ÉPOCA – Quando é o momento psicológico ideal para a mulher decidir ser mãe?
Verny – Não há um momento ideal. Mas há requisitos mínimos: estar saudável, ter uma boa relação com o parceiro, ser capaz de sustentar a criança. O importante é ter certeza de que realmente quer ter um filho. Esse é o bom momento. Mas é muito importante que o pai também queira.
ÉPOCA – E nos casos de adoção?
Verny – O mais importante é saber que a criança esteve com a mãe biológica por nove meses. Quando ela foi dada a outra mulher, para a criança é como dormir em um quarto e acordar na Lua. Essa criança estava acostumada à batida do coração da mãe, seu tom de voz, seu cheiro. O bebê vai estar em estado de choque. Pais adotivos não sabem disso, o que é um erro. Pensam que se tem uma mãe, uma casa e alimento a criança será feliz. Não é o caso. Esse bebê vai estar triste e vai precisar de muito mais atenção e cuidado. A mãe adotiva precisa estar preparada para tudo isso. Caso contrário, ela vai começar a pensar: ”O que eu fiz? A criança não pára de chorar, vamos mandar de volta para o orfanato”. E muitas vezes fazem isso. O que é pior para a criança.
ÉPOCA – Dar atenção demais mima e ”estraga” a criança?
Verny – Amor não pode mimar. O que prejudica é a inconstância. Quando a mãe é muito próxima e desaparece por três dias, a criança passa por uma montanha-russa de amor e afastamento, fica confusa. Mas, se a presença dos pais é constante, eles criarão crianças saudáveis com o amor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.