PNL: Da “gagueira” à “estabilidade” Da “gagueira” à “estabilidade”

Bobby G. Bodenhamer, D.Min.
Imagine comigo, se puder, que é amanhã de manhã e que, como todas as outras manhãs, você acorda para encarar outro dia como uma pessoa que gagueja. Você começa sua rotina normal da manhã que, em todas as aparências, se assemelha à rotina matinal de qualquer pessoa que não gagueja. De fato, a única diferença em sua rotina e a de quem não gagueja é o que está acontecendo na sua mente. Enquanto a pessoa que não gagueja está se preocupando sobre o que vai vestir e se o cabelo está num dia daqueles, você está examinando cuidadosamente a sua mente sobre quais ameaças de fala que podem estar lhe esperando no dia de hoje. Imediatamente você se sente ansioso e com medo, e começa a planejar como pode evitar as situações ameaçadoras. O dia acaba como você esperava .. você foi capaz de evitar algumas situações, mas outras não conseguiu. Na hora em que você chega em casa de noite, você está emocionalmente esgotado e gastou toda a sua energia tentando manter o seu problema de gagueira ao mínimo ou, na melhor das hipóteses, completamente escondido. Mas, e se nessa noite em particular, quando chegar em casa, acontece algo novo e lhe são entregues as ferramentas emocionais para controlar imediatamente a gagueira? Muito bom para ser verdade? Outra promessa vazia? Não tão rápido, mas realmente acontece.
Eu comecei a gaguejar com cinco anos de idade; com sete eu já estava perito na gagueira. Eu estava completamente equipado com cada emoção e crença necessária para ser bom na gagueira. Eu carregava essas emoções e crenças para todo lugar que eu fosse, inclusive enquanto seguia para a fase adulta. Durante os meus anos de escola na infância, uma vez por semana, ao invés de me permitirem sair para brincar nas horas de folga, eu muitas vezes era logo despachada para a terapia de fala. Na escola secundária, meus professores pouco expressivos achavam que eu podia superar a gagueira me fornecendo amplas oportunidades para falar na frente da classe. Depois como jovem, eu me alistei no Exército por quatro anos para ajudar a pagar pela minha educação universitária. O recrutador prometeu que o Exército iria me ajudar a superar a gagueira; o que ele não me disse era que a técnica deles era afugentar a gagueira de mim. Nenhum desses métodos funcionou.

Quando eu tinha 19 anos, tomei a decisão mais significativa da minha vida. Não, eu não estou falando de casamento, apesar de que isto também é muito significativo. Eu estou falando sobre a decisão de me tornar um Cristão. A partir desse ponto, minha perspectiva de vida e do mundo deu uma volta de 180 graus. Entretanto, me tornando um Cristão não acabou com a minha gagueira; e o desapontamento que eu senti sobre a aparente falta de interesse de Deus no meu problema de fala não foi nenhuma questão pequena através dos anos. Mas eu vou voltar a esta discussão daqui a pouco.
Agora você pode pensar que a maioria das pessoas que gaguejam, iriam evitar as profissões que exigem muita fala. Isso é provavelmente verdade, porém, por alguma razão desconhecida, 12 anos atrás eu fui seduzido para uma profissão que não somente exigia muita fala mas que também exigia falar em público. Na realidade, é a dinâmica da minha profissão que me colocou num caminho inexorável para superar a gagueira.
Antes de prosseguir de como eu passei da gagueira para a estabilidade, eu penso que é digno de nota mencionar que eu tentei alguns dos mais populares tratamentos para a gagueira com um mínimo de sucesso. Depois de ficar muito desencantado (e alguns milhares de dólares mais pobre), eu comecei a fazer pesquisa por conta própria para ver se eu conseguia descobrir a chave para desvendar o mistério por trás da minha gagueira. Veja – eu sempre me incomodei com as teorias de que a gagueira era causada por um defeito físico no mecanismo da fala e/ou no cérebro. Isso me fazia sentir incapacitado, como se a minha única esperança fosse esperar até que descobrissem uma pílula mágica que curasse a gagueira. Também não era preciso a ciência espacial para imaginar que o meu mecanismo de fala estava em perfeitas condições de funcionamento visto que, em certas situações, mesmo as minhas palavras mais difíceis podiam ser faladas fluentemente. E depois, existia esta ansiedade continuamente presente que sempre precedia a gagueira. Hummm, eu tinha muita curiosidade para descobrir o que aconteceria se a ansiedade não existisse?
Aqui é que a história fica realmente interessante. Um dia, muitos meses atrás, eu estava surfando pelo site da National Suttering Association (Associação Nacional da Gagueira, nos Estados Unidos), quando descobri o livro “Como dominar os seus medos ao falar na frente das pessoas” da autoria de John C. Harrison. Eu encomendei o livro e quando ele chegou, comecei a devorar imediatamente o seu conteúdo. A primeira parte do livro falava sobre técnicas específicas que a pessoa que gagueja podia usar para ser um efetivo orador público. Apesar desta parte do livro ser boa, a segunda parte era como respirar um sopro de ar fresco.
A segunda parte incluía a opinião de John sobre a gagueira, que incluía a opinião geral de que se você está tentando resolver um problema sem fazer mudanças generativas, é porque você está resolvendo o problema errado. Seu livro mostrava que ele percebia que muitos tratamentos sobre a gagueira não eram suficientemente inclusivos para descrever a total dinâmica do que impulsiona a gagueira; basicamente, é necessária uma troca de paradigma no modo como nós olhamos a gagueira.
No seu livro, John afirma:
Se a gagueira fosse simplesmente um problema com a mecânica da fala, nós iríamos gaguejar todo o tempo, mesmo quando estivéssemos sozinhos. Pelo contrário, ela parece ser um sistema interativo envolvendo muitos componentes diferentes, sendo o físico somente um deles. É a maneira como esses componentes interagem que cria um sistema auto-reforçante.
John continua a descrever o que ele denominou do “Hexágono da Gagueira.” O hexágono é composto de seis pontos que incluem: comportamentos físicos, emoções, percepções, crenças, intenções e reações fisiológicas. Cada ponto do hexágono está conectado com cada um dos outros. Com a preocupação de todos os pontos estarem conectados, John afirma:
Isso significa que cada elemento é influenciado, tanto positivo como negativamente, pelo o que está acontecendo nos outros locais do Hexágono da Gagueira. Em outras palavras, as suas emoções irão influenciar os seus comportamentos, percepções, crenças, projetos inconscientes e reações fisiológicas.
No restante da segunda parte do livro, John entra em detalhes, explicando cada um dos seis pontos do Hexágono e como eles se inter-relacionam com cada um dos outros. Se uma pessoa que gagueja já trabalhou previamente na mudança das suas crenças enfraquecedoras e obteve sucesso, mas ainda carrega emoções negativas dos traumas ou de mágoas da infância, estas emoções irão ter um efeito negativo nos demais pontos do Hexágono e vai desfazer todo o sistema, deixando a pessoa ainda vulnerável à gagueira. Assim, cada ponto deve ser efetivamente tratado. Ele também argumenta que para fazer a gagueira desaparecer, você não pode focar em resolvê-la; você deve focar em dissolvê-la. Em outras palavras, para remover o problema você precisa destruir sua estrutura.
O Hexágono da Gagueira idealizado por John foi a descrição mais correta do mistério por trás da gagueira que eu li até hoje. E o fato de que ele foi capaz de vencer sozinho a gagueira depois de 25 ou 30 anos, me deu o impulso final que eu precisava para saber que eu também podia superar a gagueira.
Apesar de ser excelente o livro do John, ele nunca teve a intenção de ser um programa de terapia ou de fornecer técnicas para se alguém se tornar mais fluente. Assim, ao final do livro, eu continuei com a questão: “Como eu consigo que todos os pontos do Hexágono fiquem positivamente polarizados?” Não sabia que em breve eu descobriria a resposta.
No decorrer do livro, John recomendou diversos livros para leitura, um dos quais era “Desperte seu Gigante Interior” de Anthony Robbins. A leitura deste livro foi a minha introdução à Programação NeuroLingüística (PNL). No fim, esse livro me conduziu a “The User’s Manual for the Brain”, que é um manual que abrange o curso de Practitioner de PNL e que foi escrito por Bob G. Bodenhamer, D. Min. e L. Michael Hall, Ph.D., co–fundadores da Neuro– Semântica(NS).
Enquanto eu lia os livros sobre PNL, fiquei animado sobre o potencial que essas técnicas tinham para serem as ferramentas efetivas para conseguir que o Hexágono da Gagueira ficasse positivamente polarizado, pois isso se relacionava com a minha capacidade de falar fluentemente. A prática de técnicas do “Desperte o seu Gigante Interior” provaram ser moderadamente efetivas. Mas eu continuava com a esperança de que isso podia ser, no final das contas, o mecanismo que iria me conduzir à estabilidade com a fala. Eu sentia que, se conseguisse trabalhar com alguém treinado em PNL, ele seria capaz de me conduzir através das técnicas que viriam a ser as mais efetivas para as pessoas que gaguejam.
A minha oportunidade se apresentou quando no meio da leitura do “The Users Manual for the Brain”, o autor indicou o endereço do website da NeuroSemântica (www.neurosemantics.com). Eu fui visitar o site no dia seguinte e descobri que eles davam consultas particulares. BINGO!!!! Por causa das minhas crenças Cristãs, eu escolhi mandar um e-mail para Bob Bodenhamer, D. Min. Eu sabia, através da leitura do seu livro, que ele tinha os mesmos valores Cristãos que eu, e com isso eu sentia confiança em contatá-lo. (Mais tarde, eu descobri que Michael Hall, Ph.D., também tinha as mesmas crenças.) Quando recebi por e-mail a resposta de Bob indicando disposição para trabalhar comigo, eu fiquei em êxtase!!! Ele revelou que, de fato, tinha uma experiência limitada a quatro ou cinco clientes que gaguejavam, mas que ele tinha obtido resultados bem sucedidos utilizando as habilidades da Programação NeuroLingüística (PNL) e da NeuroSemântica (NS). Bob também achava que ele tinha condições reais de me ajudar via telefone, o que evitava a necessidade de pegar um avião até a Carolina do Norte para encontrá-lo. Nós estabelecemos a primeira consulta telefônica para a sexta-feira seguinte.
A pergunta que vocês devem estar se fazendo é “O que é Programação NeuroLingüística (PNL) e NeuroSemântica (NS)?” PNL é um modelo que lhe ajuda a tomar conta do seu próprio cérebro desenvolvendo estratégias eficazes e representando as suas experiências de uma maneira efetiva. A NeuroSemântica incorpora os “significados” de níveis mais elevados para a estrutura da subjetividade. Os nossos “estados” incluem os pensamentos-e-sensações dos níveis neurolingüísticos primários em reação a algo que está lá fora no mundo. Isto define um Estado Primário. Um Meta-Estado inclui mais. Inclui os nossos pensamentos e sensações sobre os nossos pensamentos, emoções, estados, memórias, imaginações, conceitos, etc. Também inclui as nossas meta-reações para as reações anteriores. (O pavor do medo de gaguejar).
Bob resume na sua afirmação um dos maiores conceitos da PNL/NS: “Na PNL/NS, nós suportamos a crença de que cada pessoa tem todos os recursos que ela precisa a fim de ‘arrumar’ qualquer problema baseado no cognitivo (pensamento) que ela possa ter.”
Eu não sei sobre você, mas isto é música para os meus ouvidos.
Com isto explicado, deixe-me prosseguir para lhe contar sobre a nossa primeira sessão telefônica e o dia em que eu recebi as ferramentas emocionais para controlar imediatamente a gagueira.
A primeira ferramenta, na realidade, me foi dada pelo Bob através do e-mail que ele me enviou no dia em que solicitei a consulta com ele. Ele disse: “Já que você ama Deus, eu acredito firmemente que existe uma grande chance de tratarmos disso através de consultas telefônicas e de e-mail. Para isso, o que irá acontecer quando o seu medo, ansiedade e/ou fobia sejam levados à presença de Deus?” Quando eu li este e-mail pela primeira vez, a minha reação inicial foi de impacto. Depois de riso quando, imediatamente, visualizei a figura de três pequeninos, minúsculos homens, chamados de Medo, Ansiedade e Fobia, acanhados e se curvando de medo na presença impressionante de Deus. Bob tinha usado com eficácia a minha crença em Deus para ressignificar os pensamentos sobre o medo, ansiedade e fobia ao juntá-los todos, sabendo muito bem que minhas crenças não iriam permitir que os dois convivessem juntos.
Depois veio a consulta por telefone. Depois de um breve período para nos conhecermos, Bob concentrou a atenção na sensação de ansiedade que me era tão familiar e também para muitas outras pessoas que gaguejam. Ele utilizou a técnica chamada de “ir mais fundo” que tinha sua base nos trabalhos de Alfred Korzybski no seu clássico livro “Science and Sanity”. A partir desse livro, Dr. Tad James da “Advanced Neuro-Dynamics” imaginou a técnica atual do “ir mais fundo,” mais tarde revisada por Bob e Michael que lhe adicionaram recursos da NeuroSemântica. A técnica é usada para tratar dos pensamentos inconscientes como estes que levam à gagueira. A descrição a seguir foi obtida das notas terapêuticas de Bob Bodenhamer:
Na nossa primeira conversa telefônica, eu (Bob) associei a cliente na sua ansiedade, o que significa simplesmente que eu queria que ela realmente sentisse a ansiedade. Ela tinha uma sensação de “peso e aperto” no estômago, uma sensação que ela descrevia como um “obstáculo”. Agora desloque tudo isto para os músculos que controlam as cordas vocais e você tem a gagueira.
A partir dessa posição dela, experimentando essa sensação de “peso e de aperto” no estômago, eu pedi para ela ir mais fundo nesta sensação. “O que você sente abaixo desta sensação?”
“Eu sinto medo. O medo está ali!” (Note que aqui nós temos um pensamento de medo que se liga diretamente com a ansiedade.)
“Vá mais fundo no medo. O que você sente abaixo do medo?”
“Nada. Eu não sinto nada.”
“Bom. Agora, apenas se imagine esclarecendo o ‘nada’. E, indo mais fundo, o que tem do outro lado do nada?”
“Eu vejo pessoas. É um pouco assustador. Elas estão me olhando. Estão esperando que eu diga alguma coisa.”
“Sim. E o que isso significa para você?”
“Bom, a sensação é de querer ir embora e me esconder.”
“OK. Isto faz muito sentido para alguém que tende a gaguejar quando fala para um grupo de pessoas.”
“Agora, vamos mais fundo neste pensamento-sensação. O que você sente abaixo disto?”
“Ummh. Eu me sinto segura. Agora eu me sinto bastante segura.”
“Você está fazendo tudo muito bem. Isto é bom e vai ficar melhor. Agora, simplesmente vá mais fundo na sensação de estar segura e o que ou quem está por baixo disto?”
“Eu sinto um contentamento. Eu me sinto sozinha mas segura.”
“Agora, simplesmente vá mais fundo nesta sensação de contentamento e de segurança. O que ou quem você sente abaixo disto?”
“Afeto. Total aceitação! Eu me sinto totalmente bem acolhida. Não existe julgamento aqui. Eu vejo uma luz amarela.”
“Grande. A luz está realmente brilhante?”
“Está sim. Muito brilhante.”
“Sim, eu sei que é muito brilhante. E, Quem disse “Ele é a luz do mundo?”
“Jesus.”
“Está certo e Ele está aí, não está?”
“Sim, é Deus. Ele é a Luz Brilhante.”
“Muito bom; apenas permaneça aí com Deus e na presença do afeto e da total aceitação.”
“Agora, o que acontece com a ansiedade na presença de Deus?”
“Se foi.”
“O que acontece com o medo na presença de Deus?”
“Se foi.”
“O que acontece com a sensação de querer ir embora e se esconder na presença de Deus?”
“Se foi.”
“Sim, todos elas foram embora, não foram?”
“Sim, foram.”
“E na presença de Deus, o que acontece com a gagueira?”
“Se foi.”
“Sim, e estando aí na presença de Deus, perceba o que você vê, ouve e sente. Determine uma palavra ou frase para este estado pois assim quando você se lembrar desta palavra ou frase, você irá imediatamente para a presença de Deus. E, em qualquer hora que você tiver a sensação de que pode gaguejar, vá para a presença de Deus e você irá alcançar o controle total da gagueira.”
Bob utilizou as minhas crenças em Jesus ao me fazer “levar os pensamentos negativos à presença de Deus,” o que me obrigou a aplicar a minha fé e crença no todo poderoso Deus onde cada um destes pensamentos não pode possivelmente habitar. Depois que nós completamos essa técnica, Bob utilizou a técnica da Pesquisa Transderivacional ao me fazer lembrar a primeira vez que eu senti ansiedade relacionada com a gagueira. Minha primeira memória da sensação da ansiedade foi com a minha mãe. Que eu me lembre, minha mãe estava infeliz com a minha gagueira e eu, como uma criança, podia detectar facilmente a sua insatisfação com a minha capacidade de falar. Bob ressignificou essa memória para remover efetivamente o impacto destas percepções passadas.
Evidente que a pergunta agora é “Como isso funcionou nos dias seguintes depois da conversa de 45 minutos com Bob?” Bem, eu observei com atenção. Na segunda e na terça-feira depois do trabalho, eu tive nove ocasiões onde começou a ansiedade. Em oito dessas nove vezes, eu usei o método “indo para Deus” e as palavras fluíram tão macias como manteiga. Porém, uma vez eu encontrei um bloqueio que, de repente, apareceu de não sei onde (sem aviso, apenas um impacto!).
O progresso era surpreendente, mas agora eu queria assegurar que os bloqueios inesperados não iriam acontecer mais. Assim, marquei outra sessão com Bob para a noite da próxima quarta-feira. Nesta noite nós ficamos uma hora no telefone lidando com um problema do qual eu não fazia a menor idéia de como havia enterrado seus tentáculos na base da gagueira. Ele não tinha nada a ver com a gagueira em si, mas tudo a ver com a ansiedade por trás da gagueira. O problema veio à tona enquanto Bob estava tentando determinar especificamente o que eu estava fazendo para disparar o bloqueio da fala. Eu tinha indicado que o meu maior desafio era falar na frente de um grupo de pessoas ao contrário de uma conversa individual. Nós descobrimos várias sensações associadas com a fala na frente de grupos tais como a sensação de muita gente, falta de controle, vulnerabilidade e desprotegida. Ao me tornar totalmente consciente destas sensações, isso causou somente um pequeno desconforto. Entretanto, as sensações por trás destas iniciais, não eram tão fáceis de tratar. Enquanto Bob trabalhava comigo para descobrir os “outros” pensamentos, eles eventualmente chegavam gritando à minha mente consciente. Imediatamente a minha mente começou uma guerra interna de “diz” ou “não diz”. Depois do que pareceu como um grande turbilhão na cabeça em reação à pergunta do Bob, eu cheguei a conclusão de que se eu queria tanto ficar 100% livre da gagueira, eu precisava sair fora desta situação e revelar o que eu estava me recusando a discutir desde a minha mocidade.
Então, o que era essa coisa da infância que reforçava a gagueira? Bem, como todas as outras crianças, quando eu estava crescendo, experimentei muitos eventos traumáticos. Eu sabia que eu podia limitar o problema, protelar e continuar a ter um certo nível de problemas na minha fala OU eu podia enfrentá-lo e superar a gagueira. Os dois problemas tinham se interligados e o trauma reforçado a gagueira. Um ponto importante a destacar é que uma das grandes coisas sobre a NeuroSemântica é que não é necessário discutir os detalhes de uma dada situação. Eu nunca tive que revelar muito mais do que apenas o aspecto elevado do nível do trauma. Mas eu tinha que estar preparada para tratar com os pensamentos na minha mente. Isto nunca é fácil. Entretanto, voltando para o Hexágono da Gagueira de John, isso precisava ser efetivamente “ressignificado” a fim de conseguir todos os pontos do hexágono positivamente conectados. Os bloqueios de surpresa provavelmente nunca teriam ido embora sem o tratamento efetivo de todos esses problemas por trás da ansiedade e do medo.
No restante da sessão, Bob utilizou técnicas específicas de linha do tempo para ajudar a influenciar a desensibilização das memórias como elas se relacionavam aos problemas da infância. No final da sessão, nós tínhamos descoberto que, apesar da raiva muito evidente em relação aos eventos que envolviam a minha infância, o que era ainda mais significativo era a raiva que eu sentia em relação a mim mesma como uma criança. Em essência, eu culpava a mim mesma pelos eventos do passado. A sessão terminou e nós marcamos um novo encontro para a próxima semana.
O que é interessante é que depois dessa sessão, os bloqueios da fala desapareceram. O problema não tinha sido completamente resolvido mas, aparentemente, tinha sido lidado com a causa o bastante para o bloqueio desaparecer. Eu ainda tinha o “pensamento” de ser uma gaga e ocasionalmente eu teria a sensação física que eu podia gaguejar ou me bloquear, mas isso não aconteceu. Em essência, os aspectos fisiológicos ainda estavam presentes e como Bob mais tarde me explicou eram resultado dos músculos ainda neurologicamente programados (um outro ponto do Hexágono da Gagueira). Eu não tenho certeza, mas eu arriscaria dizer que a gagueira poderia eventualmente ter retornado se eu não tivesse me apressado para tratar da raiva que eu sentia em relação a mim mesma como criança.
Antes de falar sobre a terceira e última sessão, seria útil mencionar que durante as três semanas que eu estive tendo consultas telefônicas com Bob, eu também estava lendo “Mastering Your Fears” escrito por Bob e Michael Hall, Ph.D. Durante a leitura, eventualmente, eu descobri a ‘Lógica Cartesiana’, que é um mecanismo para desafiar o pensamento das pessoas. Ele é composto de quatro perguntas, em que a ultima é: “O que não iria acontecer se fosse mantivesse a sua fobia (isto é, a gagueira)?” Eu respondi as três primeiras perguntas com relativa facilidade, mas quando cheguei na última (depois de imaginar o que realmente estava sendo perguntado), eu tive dificuldades em encontrar a resposta até que, vindo de não sei onde, a frase: “Isso não ia manter as pessoas longe de mim” apareceu com força na minha mente consciente. Eu estava chocada tentando descobrir da onde isto tinha vindo. Era quase uma afirmação ridícula para mim porque eu sempre tinha tido prazer por estar cercada de pessoas. Mas tão rapidamente como a frase veio, eu me dei conta exatamente do que ela significava. Apesar de que as pessoas sempre tiveram um lugar importante na minha vida, eu tinha aprendido, muito cedo na vida, a manter na privacidade os meus pensamentos e sentimentos mais profundos. Agora eu me lembrava que, muitas vezes, as pessoas que haviam cruzado na minha vida tinham feito comentários de como eu era “particular” em compartilhar os pensamentos e sentimentos pessoais. A gagueira era uma maneira de manter a uma distância segura as pessoas que eu amava na vida. Eu ficava feliz ao cuidar delas emocionalmente, mas eu nunca permiti que elas cuidassem de mim emocionalmente. Isso, eu suponho, era um comportamento que eu havia aprendido muito cedo na infância. Enquanto eu refletia sobre isso, eu claramente podia ver como isso era um mecanismo de proteção. Quando os amigos e a família começavam a fazer perguntas que eu percebia como ameaçadoras, imediatamente eu começava o bloqueio e a gagueira. Isso era uma maneira deles saberem que eu não estava disposta a acompanhá-los e funcionava muito bem. Ninguém queria me ver gaguejar quando falava, e assim eles normalmente desistiam do assunto. Isso era a primeira vantagem que eu recebia com a gagueira.
A partir daí eu fui capaz de voltar para trás e avaliar a razão pela qual sentia que precisava manter tanta privacidade e também se isso era um comportamento válido para ser mantido hoje. A minha conclusão era que como adulta, eu não precisava mais ter a proteção da gagueira para me proteger. Eu também tenho a capacidade de avaliar, numa base diferente, o que deve ser compartilhado e o que deve ser mantido privado. As regras da minha infância não eram mais válidas.
E por fim, a última sessão. Durante essa sessão, Bob e eu tratamos diretamente daquele ódio intenso. A sessão foi a mais difícil das três. Bob me fez voltar para trás e visitar aquela menina de sete anos. Ele me pediu para conduzi-la até Deus mas, no princípio, eu fui incapaz de fazer isso porque sentia que ela não merecia estar com Ele. De fato, eu sentia que o próprio Deus não ia querer ela lá com ele. Eu sabia, na minha cabeça, quão ridículo eram os meus pensamentos, mas as minhas emoções eram infladas com aversão e desprezo pela menina. No fim, Bob foi capaz de encontrar uma maneira de me fazer levar a menina até Deus, mas isso continuou como algo não natural e eu a desprezava por invadir o meu relacionamento com Deus. Então nós trocamos a engrenagem. Agora o foco era como a menina de sete anos se sentia. Meu comentário para Bob foi que ela era “mais furiosa do que um Spitfire.” Quando Bob me perguntou de que maneira ou com quem ela estava furiosa, certamente os eventos do passado foram mencionados, mas a verdadeira raiva que ela estava sentindo era comigo adulta. Sua raiva era que eu a considerava responsável e que me negava a me dar bem na vida. Ela queria que eu deixasse de colocar tanta ênfase nos eventos do passado e simplesmente começasse a ser adulta. Uau!
Depois de 30 minutos, Bob interrompeu a sessão para me dar tempo para processar o que tinha acabado de ocorrer. Isto era certamente um ponto muito decisivo. No dia seguinte eu enviei para ele o seguinte e-mail:
… depois que nós desligamos o telefone, eu fiquei elaborando (ótima hora para pensamentos e processamento das informações) e muitos pensamentos cruzaram pela minha mente. Deixe-me aborrece-lo com alguns deles.
Eu estava pensando na minha sobrinha de sete anos. No dia que ela nasceu, ela roubou meu coração. Eu a amei perdidamente e, silenciosamente, jurei fazer tudo que estivesse ao meu alcance para assegurar que ela nunca iria ter uma infância traumática. Depois eu percebi que Deus não ia me dar o poder para protegê-la completamente. Ele nem mesmo deu esse poder à minha irmã e meu cunhado para proteger sua própria filha. Assim eu decidi fazer o que Ele tinha me dado o poder de fazer… amá-la incondicionalmente não importando o que acontecesse, ser sua protetora por toda a vida, encorajá-la e ensiná-la como amar a Deus e as outras pessoas. Depois comecei a indagar por que razão eu era capaz de amar minha sobrinha tão intensamente, indiferente do que acontecesse com ela. Se por acaso alguma coisa ocorrer com ela, eu só queria segurar ela bem apertada até que o seu sofrimento sumisse. Parece que não deveria haver diferença entre a minha sobrinha de sete anos e eu mesma com sete anos.
Então eu me enxerguei olhando 31 anos para trás para uma menina de sete anos e eu estava gritando “Arruma as suas malas e saia da minha vida!” a menina de sete anos está olhando 31 anos para frente e gritando “Cresça, você é que adulta!” A resposta não está aqui!” Me parecia que ela estava certa. Não importa quantas vezes eu tenha visto as fitas do meu passado, eu não vou descobrir a resposta na menina de sete anos. A menina fez o melhor que ela podia com os recursos que ela tinha. Não existia nenhuma resposta na sua mente; ela só tem sete anos. E aí, eu gritei de novo para ela “Espere, eu estou indo para aí.” Agora a menina está sorrindo. Eu, tendo 38 anos e preenchida com o espírito de Deus, comecei a me movimentar na direção dela. Quando eu a alcancei, eu a recebi com alegria nos meus braços e lhe dei o mesmo amor que eu podia dar a minha sobrinha. Então uma coisa interessante aconteceu: nós duas olhamos para o individuo que foi o responsável pelos eventos no passado e nós vimos algo novo… o vazio dentro da alma desta pessoa. Eu sussurrei para a pequena menina “Você nunca fez nada.” Então eu me pus em movimento e visitei esta pequena menina em cada etapa do trauma enquanto ela estava crescendo e eu repeti o mesmo processo.
Depois outro pensamento me ocorreu. Continuando a viver com a mente da traumatizada menina de sete anos está em violação direta de todos os valores e crenças que eu tenho como adulta. Crenças como: Jesus veio para me libertar, eu serei salva pela graça e não pelo trabalho, eu sou uma nova criatura em Cristo, eu não sinto medo daqueles que podem matar meu corpo mas não tem poder para destruir minha alma e todas as outras maravilhosas verdades bíblicas que eu persisti na minha vida. E ainda existiam soando nos meus ouvidos as suas palavras quando você citou Paulo “Quando eu era uma criança, eu pensava como uma criança, mas agora eu coloquei os pensamentos imaturos atrás de mim.”
Agora eu me sinto melhor do que aquela menina com sete anos. Eu não sei o que o amanhã vai me trazer, mas hoje eu não somente me vejo como adulta mas também penso como adulta.”
A minha primeira conversa telefônica com Bob foi no dia 18 de janeiro de 2002. Os resultados imediatos foram surpreendentes. A segunda foi no dia 23 de janeiro. Eu não gaguejei mais desde essa data. Minha terceira conversa por telefone foi no dia 30 de janeiro. Desde então eu tenho amado esta pequena de sete anos de idade.
Para finalizar, eu tenho que perguntar: Será que Deus não esteve preocupado com o meu problema de fala nesses últimos 32 anos? A minha opinião é que Ele estava muito preocupado com a gagueira. De fato, eu acredito que a sua preocupação era com algo mais do que a gagueira, era com o meu coração. Eu estou convencida de que Ele estava muito preocupado em curar tudo em mim, não apenas um sintoma de gagueira.
NOTAS FINAIS:
Esse artigo foi escrito com o auxílio de Bob G. Bodenhamer, D. Min., a quem eu sou incrivelmente agradecida, não apenas pela sua ajuda para escrever esse artigo, mas também em me ajudar a atingir os tremendos resultados que eu recebi utilizando a Neuro-Semântica.
FONTES:
Bodenhamer, Bobby G. and Hall, L. Michael. (1997). Time-lining: patterns for adventuring in “time.” Wales, United Kingdom: Anglo-American Books.
Bodenhamer and Hall. (1999). The User’s Manual for the Brain. Bancyfelin, Carmarthen, Wales: Crown House Publishers Limited.
Bodenhamer and Hall. (2000). MasteringYour Fears Washington D.C.: Institute of Neuro-Semantics.
Hall, L. Michael (1995-2001). Meta–states: A domain of logical levels, self–reflexive consciousness in human states of consciousness. Grand Jct. CO: Empowerment Technologies.
Harrison, John C. (1989-2000). Conquer Your Fears of Speaking Before People. Anaheim Hills, California: National Stuttering Association.
Korzybski, Alfred. (1941/1994). Science and sanity: An introduction to non-aristotelian systems and general semantics, (4th Ed & 5th Ed). Lakeville, CN: International Non–Aristotelian
Artigo publicado na Anchor Point de setembro de 2002.
Artigo original: From “Stuttering” to “Stability”

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