Sim, existem fenômenos paranormais

Jayme Roitman é psicólogo formado pela Universidade de São Paulo, pós-graduado em parapsicologia e membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas do CLAP, Centro Latino-Americano de Parapsicologia.
Uma pergunta, relativamente, freqüente formulada aos parapsicólogos é: “Você acredita em fenômeno paranormal?”. Entendo que uma resposta, com rigor, seria: “Claro que não!”. A crença é algo apropriado para assuntos ligados à fé, tais como questões religiosas, mas não para assuntos científicos. As crenças religiosas particulares requerem o que os teólogos chamam de “arroubos de fé”. Não há sentido para um cientista, no exercício da função científica, guiar-se por “arroubos de fé”, ele vai em busca de evidências.
Como parapsicólogo pesquiso evidências ou não da existência de fenômenos paranormais. Concomitantemente, a Parapsicologia vai em busca das características do referido fenômeno. As pesquisas de campo e, principalmente, as experimentais demonstram boas evidências da existência de fenômenos conhecidos como paranormais. Que parece não se encaixarem nos paradigmas científicos atuais. A postura cientifica requer a busca dos fatos, a partir dos quais são construídas ou confirmadas teorias e não o contrário. Concebo os fatos da realidade como uma pintura em uma tela e a ciência como a moldura. É preciso encontrar a moldura adequada para a tela e não o contrário. Pois neste caso, teríamos que cortar a tela para que ela se encaixasse na moldura. Em termos literais, estaríamos mutilando a obra de arte.

Neste momento é preciso superar um impasse, qual linha seguir neste texto? Como escrever este artigo? Ou melhor, para quem dirigi-lo? Para os especialistas e críticos, correndo o risco de torná-lo hermético? Neste caso teria que privilegiar o aprofundamento na discussão de nomenclatura e conceitos em parapsicologia, explicações sobre o fenômeno, questionamento do termo paranormal e substituição pela designação anômalo, etc. Ou seria mais produtivo dirigi-lo ao público em geral? Minha opção é a segunda, tentando simplificar, sem perda do rigor científico. O termo Paranormal neste artigo irá designar os relatos de Percepção Extra-Sensorial (ESP): telepatia, clarividência e precognição. Abarcando também os fenômenos parafísicos (popularmente conhecidos como poder da mente sobre a matéria).
Ao que tudo indica, há relatos de fenômenos paranormais, em todos os povos, em todas as épocas. A explicação de fenômenos de aparência paranormal sempre foi uma preocupação da humanidade. De um lado encontramos as explicações que vão atribuir tais fenômenos ao sobrenatural (entidades, fadas, demônios, etc.). Por outro lado encontram-se aqueles que estudam cientificamente tais fenômenos, sendo este o campo da Parapsicologia.
Charles Richet em 1905, introduziu a denominação de Metapsíquica ao estudo dos fenômenos paranormais. Dividiu a história da Metapsíquica em quatro períodos. O primeiro período inicia-se com a própria humanidade e termina com Mesmer (1778): é o período mítico. O segundo período é o magnético que vai desde Mesmer até as primeiras manifestações espíritas das irmãs Fox (1847). O terceiro é o período espiritual: estende-se desde as irmãs Fox até Willian Crookes (1847-1870). Finalmente o quarto período é o científico, inicia-se com Crookes (em 1870) e estende-se até a época atual.
Em 1882 pesquisadores respeitáveis fundaram a Society For Psychical Research (Sociedade de Pesquisas Psíquicas) em Londres. Logo surgiu uma filial com o mesmo nome nos Estados Unidos (1855). No decorrer dos anos, em vários países surgiram sociedades semelhantes.
No começo do século XX investigações universitárias foram feitas na Universidade de Stanford e Harvard. Em 1927 constitui-se o primeiro laboratório de Parapsicologia na Universidade de Duke, E.U.A., dirigido por J. B. Rhine.
Rhine pesquisou em laboratório a Percepção Extra-Sensorial e fenômenos Parafísicos, utilizando-se de ferramenta nobre em termos de metodologia científica, a estatística. Para a pesquisa de ESP utilizou-se do baralho Zener, 25 cartas com cinco símbolos – quadrado, cruz, onda, círculo e estrela. Vejamos o resumo dos resultados obtidos durante a década 1930/1940. As provas de Percepção Extra-Sensorial à distância alcançaram 497.450 ensaios, obtendo-se média de 31,50% de acertos acima do 20% teórico. Tiveram lugar 907.030 experiências de precognição com um resultado de 39% de acertos, que excedem em 19% a freqüência esperada pelo acaso.
Na década de 70 dois físicos, Russel Targ e Harold Puthoff, no Instituto Stanford de Pesquisas(SRI) desenvolveram uma técnica denominada Visão Remota. Uma pessoa (receptor) tentava descrever o lugar em que uma outra pessoa (emissor) estava. O local era escolhido de forma aleatória, quando o emissor encontrava-se distante do receptor. Os resultados foram significativos, propiciando evidência de fenômeno paranormal.
Atualmente, praticamente não se utiliza o baralho Zener, pois existe uma técnica que tem apresentado resultados significativos em favor de ESP. Chama-se Psi-Ganzfeld (do alemão, campo completo). Consiste em que uma pessoa esteja confortavelmente instalada em uma poltrona reclinável. Sobre cada um dos seus olhos é colocada meia bolinha de pingue-pongue, com projeção de luz vermelha sobre estas. Nos ouvidos, um fone transmite ruído branco, parecido ao som de rádio fora de estação. A pessoa tenta “adivinhar” um alvo escolhido, entre quatro, com o qual não tem contato sensorial.
Citei algumas pesquisas importantes de laboratório em Parapsicologia, dentre muitas outras em Universidades (Alemanha: Universitãt Freiburg; Áustria: Universitãt Innsbruck; Holanda: University of Amsterdam; Grã-Bretanha: University of Edimburg e Cambridge University; Brasil: Interpsi/PUC-SP; Estados Unidos: Princeton University; etc.) e Institutos privados (Estados Unidos: Rhine Research Center; Brasil: CLAP; Argentina; Instituto de Psicologia Paranormal; etc.). No Brasil existem teses de Mestrado e Doutorado, com temas em Parapsicologia, em Universidades respeitadas, tais como USP, PUC-SP e UNICAMP.
Os milhares de relatos, pesquisa de casos espontâneos e principalmente, os resultados significativos em laboratório, levam-me a repetir o que escrevi no início deste artigo: há evidências da existência de fenômenos paranormais.
Este artigo está inserido em um contexto, o quadro do programa Fantástico da Rede Globo: Desafio Paranormal. O mágico canadense radicado nos EUA, James Randi oferece US$ 1 milhão a quem demonstrar um fenômeno paranormal, com hora marcada. Os estudos parapsicológicos demonstram que os fenômenos paranormais são espontâneos, até hoje ninguém demonstrou ter controle absoluto sobre eles. Portanto, alguém ganhar o prêmio do desafio, é possível, mas muito improvável. Ninguém ganhar o prêmio não significa que o fenômeno não exista, prova que ninguém teve controle absoluto sobre a manifestação de fenômeno paranormal. É algo que os parapsicólogos também afirmam. O mérito do desafio é desmascarar charlatães.
Qualquer afirmação sobre a existência ou não de fenômeno paranormal baseada no trabalho de Randi, é portanto falaciosa.

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